Escovar os dentes

Ele se levantou e, naquele momento, foi escovar os dentes. Era o mais simples e inesperado que se podia fazer então. Contudo, não pensou duas vezes. Seu coração havia sido esmurrado, dilacerado, rompido, maltratado, cuspido e destruído de tal maneira, que, de uma certa maneira, não havia outra possibilidade de ação a não ser aquela. Ele poderia sentir como se nada mais na existência fazia sentido e que seu futuro estaria para sempre comprometido por aquele mero momento. Faria sentido que ele se destronasse, chorasse em plenos soluços, jogasse tudo ao alto e ao baixo, gritasse até se sentir incapaz, e então se resgardasse, mas não fez nada disso. Ao contrário, ele se levantou e, naquele momento, foi escovar os dentes. Não, escovar os dentes não foi uma metáfora, não. Também não foi algo que ele faria completamente diferente da maneira como faz todos os dias. Ele simplesmente se levantou, e foi escovar os dentes. A dor que poderia estar sentindo, que deveria estar sentindo, simplesmente haveria de dar lugar ao momento posterior. Se parasse para pensar, provavelmente chegaria à conclusão que nunca fora atingido daquela maneira, e que nenhum sentimento havia doído nem haveria de doer tanto em seus breves anos. Na verdade, nunca algo teria um potencial tão transformador, tão destruidor, tão plutoniano, tão mortal se considerássemos todos os acontecimentos temporais da sua finiture. No entanto, ele agiu da maneira mais simples e inesperada que ele mesmo poderia se prever. Ele abriu um parênteses e, simples assim, foi escovar os dentes. Aquilo não significou nada mais do que poderia e deveria ter significado. Foi simplesmente uma ação. Foi a sua ação naquele momento, e por isso, para ele, por ele, e acima dele, ele se levantou e, naquele momento, foi escovar os dentes.

Encontro com o Presente

Hoje, eu tive um encontro com o presente,




... um dia será e terá passado,
noutro, foi um vindouro futuro,
mas agora, ah agora, ele simplesmente não é.


"É que, em geral, o presente nos fere"
Pascal, Pensamentos


[.]

Lembranças (VIII)

“”Eu não sei se te amo mais...”, foram as palavras escolhidas por ele ao que deixava livre a minha mão que até então trazia entre seus dedos. “..., quero dizer, eu sei que te amo, mas eu não te amo mais.” Ele completou, assim que pôde perceber que não obteve resposta. Interrompi ali nosso caminhar e permaneci por momentos inerte, olhando fixamente para frente, como se fitasse o futuro, o infinito, simplesmente por não poder encarar o presente que se colocava ali do meu lado. Silêncio. Essa inação que se manteve, quase por inércia, durante vários instantes, talvez por falta de uma coragem e um ímpeto mínimos para que se irrompesse algo naquele retrato da estática. Estávamos mais uma vez no exato local onde havíamos nos conhecido, passando bem à frente da mais bela obra da já descrita exposição. Havia exatamente um ano desde lá e o meu plano inicial era retornar ali para sentarmos no mesmo banco, mas a providência parecia que preferira que ficássemos sobre os nossos pés, tensos e com os músculos tesos, na medida em que a leve brisa que passava se transformava no volume mais denso e carregado que se poderia imaginar. Era, como obviamente é possível se deduzir, outono, e o dia se mostrava ironicamente tão belo e ameno como da primeira vez. Passara pela minha cabeça até fazer um pequeno piquenique comemorativo e essa idéia que já havia me feito sorrir nas diversas horas que me empenhei no seu planejamento, ali me trazia um aperto onde dizem que se situa o coração e um embrulho mais embaixo que me fazia repugnar qualquer tipo de nutrição. Ainda posso sentir o mesmo gosto, a mesma dor, a mesma repulsa ainda agora, enquanto ponho em palavras vazias toda essa sequência de sentimentos que me são tão tão caras. Fui eu que dei o próximo passo, e me coloquei de frente para ele, olhando no fundo daquelas íris que tanto conhecia e que tanto visitei durante todo aquele tempo. Sem sorrisos, sem carinhos, sem defesas, perguntei: “E agora?”. Foi o seu turno de não-reação, a não ser pelas lágrimas que começavam a surgir e deixar seus olhos ainda mais resplandecentes, ainda que turvos, ainda que tristes. Então ele se projetou e procurou novamente a minha mão, mas eu a fiz recuar. Ele permaneceu imóvel, suas sombrancelhas se arquearam, como num pedido de ajuda desesperado que acabara de lhe ser recusado, e em seguida não pôde conter a chuva que se armara em seu semblante pouco antes. Deu um passo súbito para frente e me abraçou. Deitou sua cabeça no meu peito enquanto me apertava forte e soluçava audivelmente. Nenhuma potencialidade motora minha se atualizou e era como se até os meus sentimentos mudos tivessem parado de bater. Estava tão perto que podia sentir toda a sua tristeza, toda a sua dor, todo o seu desespero. Seu corpo todo tremia, sua alma toda fremia e todo o seu ser temia o momento no qual aquele momento se acabaria. Uma eternidade passada, ele levantou seu rosto e me pediu um último beijo. Completamente vazio, me inclinei um pouco para frente e me uni a ele daquela última vez, e foi como se tudo aquilo no universo que se é possível sentir me completasse na fração de segundo mais instantânea que se pode experimentar nessa existência. Incapaz de suportar aquilo, me virei e fugi, correndo, de uma realidade ali que jamais seria minha novamente. Realidade essa que deixei naquele dia para trás e que nunca mais me foi devolvida. Mesmo que eu assim tente, me esforce e me desgaste, rabiscando e rascunhando essas minhas mais tristes, estranhas e ricas “lembranças””.

Canção de Inverno (I)

A doce melodia ecoava por todo o cômodo. O arco escorregava pelas cordas produzindo aquele som único e belo. As mãos alvas e habilidosas manipulavam o instrumento com destreza e experiência, e tirava dele notas harmônicas que entorpeciam o ambiente. O sorriso sereno e os olhos cerrados do violinista traziam uma sensação bela de tranqüilidade e felicidade. Seu corpo acompanhava levemente os movimentos da música. Uma cena muito bela de se assistir.
A neve acusava uma tempestade fora da casa. A janela tremia ao que os flocos a atingiam incessantemente. O frio era muito nessa época do ano, o que obrigava o loirinho a vestir um rico casaco marrom, que mais lhe caía como um sobre tudo e o agasalhava com o pêlo com que era confeccionado. A pelagem alva lhe confortava os pescoços, única área onde estava presente na peça. Sim, estava realmente muito bonito. O inverno era embalado pela melodia que escapava das cordas e driblava o frio que se situava mesmo dentro de casa e estremecia os ossos dos que não estavam agasalhados.

A melodia terminou e os olhos verdes se revelaram por trás das pálpebras que se abriram lentamente após o término do pequeno concerto. O violinista apartou o instrumento do pescoço com delicadeza e se curvou com classe, agradecendo o público, ainda sorrindo.
O único detalhe é que não havia público algum. Os sussurros eram do vento do lado de fora e os aplausos eram o barulho da neve atingindo o vidro da janela.

Lembranças (VII)

“Naquele dia, eu havia sido convidado por uma amiga a ir ao museu, e como de fato era um dos meus programas favoritos, de prontidão, aceitei. Era um daqueles dias exemplares do outono por aqui, havia uma fina camada de folhas secas sobre o gramado do jardim, o sol brilhava forte, mas não o essencial para nos esquentar de verdade, e toda a paisagem compunha o que poderíamos chamar de um belo dia. Lembro de estar sentado no pequeno banco de pedra na frente da entrada principal, ouvindo um pouco de música, e ignorando completamente o quanto um dia inocente daqueles poderia afetar a minha vida, ao que a esperava, atrasada como sempre. Foi nesse meio do curso natural que ao qual chamamos tempo que eu o vi pela primeira vez. Por acaso, eu estava olhando desinteressadamente ao meu redor ao mesmo tempo que ele levantava seu olhar do pequeno livro por alguns instantes, como para descansar, e, por uma fração de segundo, os nossos olhares se cruzaram. Eu acho que é para denominar esses momentos altamente significativos onde a chance do não-acontecimento é infinitamente superior que a do fato ter efetivamente acontecido que criamos a palavra coincidência. E foi nessa coincidência, ou para ela, que ele esboçou um sorriso e voltou ao seu texto. Não sei como teria sido se ele não tivesse sorrido, mas foi aquele sorriso que me chamou a atenção. Acredito que eu nunca vi, antes ou mesmo nunca depois, um sorriso que me intrigasse tanto assim. Naquele momento era como se eu tivesse vivenciado uma experiência estética de grau mui mais elevado que com qualquer obra que viria a observar lá dentro. Sei que enquanto ainda tentava decifrar aquele sorriso quase disfarçado quase proposital, minha espera chegou ao fim. A fim de manter a ambiguidade do último enunciado, continuo contando que durante toda a visita senti que ele, desacompanhado, me acompanhava com aquele sorriso e o olhar quase tímido, e eu pouco ou nada conseguia me concentrar nas esculturas, pinturas e fotografias tão belas que o museu, com tanto orgulho, ostentava. Foi quando, já no fim da visita, eu percebi que ele se afastou, sentando num canto, num pequeno banco estrategicamente colocado na borda de um dos vistosos jardins que circundava a obra mais famosa do local, para que a apreciação mais perfeita fosse possível. Quase magicamente, o local estava, naquela hora, deserto. Pedi licença à minha amiga, e fui, quase sem pensar, pelo mesmo caminho, sabendo só inconscientemente que ia, na verdade, ao seu encontro. Fiquei um bom tempo, de pé, apenas observando, enquanto ele olhava para cima e contemplava, absorto, mudo e inerte, aquela obra que havia contribuído com a humanidade com muito mais que algumas páginas que lhe são sempre dedicadas nos livros de história da arte. Mais uma vez, sem compreender o porquê, fui pego desprevenido quando, serenamente, mas na verdade contendo um turbilhão dentro de si, que ele voltou os seus olhos para mim, agora sem disfarce, sem sorriso, só com o seu brilho natural que parecia lhe emanar naquele momento. “Eram seus olhos” ele diria, muito tempo depois, quando eu o narrava o acontecimento, como agora, do meu ponto de vista. Sem mais palavras, talvez porque elas não eram necessárias, talvez porque eu não as tinha a altura na situação, caminhei até ele, dei-lhe um beijo suave, sentei-me ao seu lado e disse: “Boa tarde”. “Boa tarde”, ele me respondeu, tomando minha mão na sua pela primeira vez".

Bom dia / Realidade Paralela

M. não pôde deixar de sorrir quando abriu os olhos de manhã e logo pousou-os sobre o outro par que o olhava dormir tão serenamente e respirava profundamente. Estranhamente aquilo o acalentava. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ainda com o sorriso no rosto, levou as mãos à face do outro fazendo um pequeno carinho de agradecimento pela vigília do seu sono. O outro também esboçou um sorriso, talvez um dos mais sinceros da sua vida, e lhe deu um beijinho estalado no nariz antes de se levantar e ir até a cozinha. M. continuou a observá-lo, já que a posição da cama no quarto o favorecia nessa função, enquanto ele pegava uma caixa de leite na geladeira e colocava, naquilo que parecia uma eternidade, o conteúdo num copo, até a metade (o que pareceu satisfazê-lo naquele momento), e então se apoiar na parede do pequeno corredor e voltar a olhar para ele. Ficaram um momento se encarando, e M., depois de alguns momentos, riu, e afundou sua cabeça no travesseiro, de uma forma quase mágica, e quando novamente encontrou o verde da íris do outro, pôs a ponta da língua de fora e bateu uma vez no travesseiro ao seu lado, como que pedisse a companhia de volta.

T. pouco pôde acreditar como aquele momento lhe fazia feliz. Encarava, simplesmente porque não tinha mais outra reação, e realmente duvidava do como aquela manhã estava sendo simplesmente linda. Lindo, estava o outro, na sua opinião, com aquela linguinha de fora que o fez respirar um par de vezes antes de voltar, satisfeito, pra cama. Aquele convite era simplesmente irrecusável, e T. estava a admitir para si mesmo como o outro ficava ainda mais bonito de olhos abertos, com aqueles olhos negros despertos que no momento o hipnotizavam como se nada mais no mundo pudesse existir de tão profundo. Quando voltou à cama, T. lhe deu um suave beijo nos lábios, e T. pensou no quanto tempo esperou para que finalmente pudesse provar desse momento, que se mostrava tão bom ou ainda melhor do que anseava.

Quando os segundos que mantinham o selo acabaram, M. não pôde deixar de sorrir quando abriu os olhos e logo pousou-os sobre o outro par que o olhava tão serenamente e dizia, finalmente, "Bom dia".

Inventor de Histórias

Essa é a história de um contador de histórias. Aliás, não de um contador, mas de um inventor. Acho que é o nome que mais lhe convém, pois no fundo ele não conta as suas histórias para ninguém além de si mesmo, já que no meio do próprio processo criativo, ele inventa, cria, ensaia e conta, num grande ato de improvisação que tudo o que possui de imediato, possui também de efêmero. Sua criação está sempre envolta e sujeita a essa fugacidade, nesse jogo do existente e do escondido, da criatura que ganha uma outra vida, essa quase onírica, mas como tudo aquilo que é sonhado, encontra em si mesmo uma realidade própria, e sem dúvida real, mas que nunca saberá disso, pois isso sequer lhe será contado no período da sua vida regular, a que ele pensa ser a única. Possivelmente também não se trata de uma história, em seu sentido mais tradicional, mas talvez de um pequeno conto, ou simples remarcas sobre uma vida paradoxalmente pacata e vívida, emocionante e emocionada por essas pequenas outras histórias que cria, dá ser e com as quais quase sempre se inunda. Esse garoto, o nosso inventor de histórias, caminha por aí, como qualquer outro, como qualquer um, como um qualquer. Sua diferença, se é que há algo que podemos chamar de diferença individual, aquilo que o distingue dos demais indivíduos da sua mesma espécie, é que cada um dos seus olhares está carregado. Para tudo onde olha, tudo onde pousa o seu olhar curioso e cuidadoso, ele projeta, ele faz pousar uma pequena e nova história. Projetar também mal traduz o que efetivamente se passa, que é como uma fusão entre o brilho do olhar e o brilho do próprio olhado, que convergem e fazem nascer algo novo, como todos os bons encontros devem fazer surgir. Duas pessoas andando lado a lado por um caminho logo se tornam um quase casal de mãos dadas, a primeira, eternamente apaixonada, sempre escuta a outra quando fala com um carinho no olhar e de vez em quando se perde e se esquece de prestar atenção simplesmente na completa inebriação da sensação do toque da outra mão; a outra calmamente valorizando a primeira, abrindo o seu coração e contando para a mão amiga tudo aquilo que lhe aflige, lhe assusta e lhe faz sorrir, encontrando naquele momento uma cumplicidade quase egoísta e míope, mas que contudo a faz sentir-se mais completa que há alguns momentos antes e alguns depois. Um mero banco se torna o depositário e relicário das lindas flores amarelas de uma frondosa árvore imaginária que lhe faz sombra e lhe fornece tais detalhes de beleza sem o qual ele não seria o mesmo, e que o diferencia à vista de qualquer ser vivo, já que, sem esses toques florais, nenhum deles pararia à sua presença e apreciaria, aqueles que podem, pensando, também aqueles que podem, “que bela cena”! Um simples andarilho, como o nosso inventor, um caro passante que lhe fez a generosidade de lhe dirigir um olhar, esse mesmo olhar, se torna então o perdido esperado por todos os tempos, um especial completamente desconhecido, mas cuja falta se fazia presente na ausência, que nesses breves segundos parece fazer desaparecer, para sempre. Como vemos, o nosso inventor inventa histórias até envolvendo ele mesmo, que se torna um personagem fantástico e com uma história que não é a dele, mas poderia ser e que agora, enquanto durar, simplesmente é. E essa realidade, esse sentimento, esse sonho, essa utopia, essa vivência, por que não, essa experiência, essa história, é uma das coisas que o faz sorrir mais sinceramente, e isso o faz tão bem, mas tão bem, que ele jurou que um dia escreveria uma história sobre esses sorrisos tão sinceros.